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Um bate papo com Abhijata Iyengar

janeiro de 2019

COMO NOS ABRIRMOS: UM BATE PAPO COM ABHIJATA IYENGAR
EXPLORANDO O YOGA COM A NETA DO GURUJI

Entrevista de Annie Schliffer
Tradução: Marcia Neves Pinto
Em janeiro de 2018 fui estudar yoga no Ramamani Iyengar Memorial Institute em Pune, na Índia. Esta era minha quarta visita e durante a primeira delas, em 2009, entrevistei BKS Iyengar, o mestre de yoga ou guru que, através de seus intensos e firmes esforços, deu à Índia e trouxe para o Ocidente um sistema de yoga que agora denominamos “Iyengar Yoga.” BKS Iyengar, afetivamente conhecido como Guruji, faleceu em 2014. Imaginei como os ensinamentos iriam prosseguir sem seu fundador na liderança.
Percebi uma prática bastante viva e vital sendo carregada adiante por maravilhosos professores sênior, incluindo a neta de BKS, Abhijata Iyengar. Ela é uma professora experiente, que traz seu próprio trabalho e inspiração ao yoga, sendo capaz de observar as necessidades dos alunos, sua força e fragilidades. Na sua aula todos crescemos e florescemos como yogis e buscadores.

Annie Schiffler: Eu gostaria de atualizar a entrevista que fiz com Guruji em 2009. Fico imaginando se você vai falar sobre a tradição da qual você faz parte e sobre como vê o legado do Guruji sendo levado adiante.

Abhijata Iyengar: Esta é uma pergunta que me foi feita muitas vezes! Como vejo o legado de Guruji sendo levado adiante? Minha resposta tem sempre sido que não sou apenas eu que farei isso. Quando Guruji me ensinou, ele ensinou a todos nós. A imagem que me vem à cabeça quando me recordo de seus ensinamentos é aquela da chuva, isto é, da chuva de seus ensinamentos caindo sobre nós. Quem quer que tenha tido suficiente sorte para estar perto dele naquele momento, foi banhado pela chuva. Eu fui uma dessas pessoas. Quem vai levar adiante? Penso que é responsabilidade de cada um.

AS: Nas suas aulas, o que você foi capaz de trabalhar conosco foi para ultrapassarmos nossos limites. Por várias vezes neste mês senti que fui empurrada para um lugar onde nunca havia estado antes, não somente em meu corpo, mas também em minhas sensações.

AI: Acho que é como todos nós somos. Permanecemos em nossa zona de conforto e não queremos ir além porque não estamos acostumados a isto. Se habitualmente faz Sirsasana na parede, às vezes simplesmente precisa fazer do mesmo modo. Tem a ver com condicionamento. Todos nós somos condicionados. Uma das maiores lições do yoga refere-se a descondicionar a vida. Vivemos de um modo muito condicionado. E Guruji nos ensinou como nos abrirmos! Deixe-me compartilhar aqui uma história de quando eu era bem mais jovem. Existe uma iguaria indiana chamada jalebi. Já ouvi falar dela?

AS: Não.

AI: É um doce de laranja, arredondo como uma quina. Chama-se jalebi, é um doce indiano e eu não gosto dele. Um dia estávamos sentados à mesa de jantar e alguns estudantes tinham dado uma caixa de jalebis à nossa família. Quando começamos a comer, Guruji disse à minha mãe, que estava servindo a mesa naquele dia: “Ei, traga os jalebis| Minha mãe os trouxe e serviu o Guruji, e quando estava me servindo, levantei minha mão para dizer: “Não, eu não quero nenhum.” Guruji perguntou: “Por que?” E respondi: “Não gosto de jalebis.” Ele retrucou: “Quem disse a você que não gosta de jalebis?” Eu disse: “Eu sei que não gosto jalebis.” E ele disse: “Naquele dia em particular, você comeu um determinado jalebi, do qual você não gostou naquela ocasião. Mas agora, você é diferente, o jalebi é diferente. Como sabe que não gosta dele agora?” Nós rimos em volta da mesa de jantar, mas agora, olhando para trás, é uma grande lição.Condicionamo-nos sobre tudo. Sobre nossos gostos, desgostos, sobre quem é nosso amigo, quem é nosso inimigo. Quando brigamos com alguém, guardamos isso e anos depois, quando precisamos daquela pessoa, é o erro daquela pessoa que aflora à nossa mente. É assim que somos. Eu simplesmente tive sorte em conviver com ele por tantos anos… Penso que por isso naquele tempo havia um sistema em que o guru, o guru e o sishya [aluno] viviam juntos. Apenas ver pode realmente ensinar-nos muito.

AS: Na aula você falou sobre o medo ter uma raiz fisiológica e isto é de grande interesse para mim. Assim como todo mundo, tenho muito medo. A pequena prática que fiz com Guruji anos atrás ainda funciona para remover o medo, de forma que eu possa agir. Mas sei que muitas pessoas ao acordarem na manhã de domingo estão cheias de medo.
AI: Medo do quê? Elas sabem do que têm medo?

AS: Penso que muitas pessoas estão sofrendo de ansiedade. Eu poderia dizer-lhe qual é o meu medo ao acordar e que se eu pudesse fazer a minha prática antes de acordar, estaria bem. Se eu puder praticar, então fico melhor, mas fico pensando se eu poderia dizer algo mais sobre o medo e o modo pelo qual as pessoas poderiam trabalha-lo.

AI: É por isso que a prática de Iyengar Yoga é tão bonita; há tantos aspectos como este que ela pode tocar. Para quem é ansioso, ela pode tocar neste ponto. Para alguém cujo ego é volumoso e é excessivamente confiante sobre tudo, haverá algo na prática de Iyengar Yoga para ele. Eu acho que é por isso que Guruji estava dando a prática de yoga; ele podia customizá-la para você. Um guru sabe quem você é e o que lhe falta. Infelizmente, nem todo mundo pode ter um guru. Não temos muitos gurus entre nós, por isso, o mínimo que podemos fazer é praticar a variedade de asanas que nos foi ofertada. Devemos identificar na nossa prática o que está nos retendo. Por essa razão acho Iyengar Yoga tão potente. A maior contribuição do Guruji é que ele pode mover-se da abstração para a prática. O medo do abstrato. Você não pode de fato identificar o que é o medo, mas ele tornou isto tangível. O corpo humano é concreto. O medo é abstrato. Cair para trás [em Urdhva Dhanurasana] a partir de Urdhva Hastasana é concreto. [Mover-se a partir da postura de pé com braços elevados para a extensão para trás sobre o chão]. Assim colocamos o concreto junto com o concreto para buscar o abstrato. Para alguns de nós, pode ser que o medo seja ficar de pé e lançar-se para trás e que não queiramos tocá-lo. Então, precisamos identificar qual parte do corpo o está retendo, porque esta parte paralisa o fluxo de energia. Uma vez que nos dirigimos a ela, o fluxo de energia se torna disponível para fazermos o que queremos.
Para outra pessoa, pode ser exatamente o oposto. Pode ser estender-se para a frente devido a dores nos isquiotibiais. Se a prática for direcionada do modo correto, por meio da junção da sensibilidade e da observação. Então todas as questões podem ser dirigidas. Penso que para aqueles de nós que vimos o Guruji, tivemos a sorte dele ter apontado que o medo está aqui, a confiança está aqui, a preguiça está aqui. Ele podia identificar cada uma destas fases da consciência, desde a dormência até a plena atividade. Ele podia ver o bloqueio. Então, agora que ele se foi, precisamos aprender a ver e a buscar por nós mesmos.

AS: Você acha que há algo diferente no seu caminho pelo fato de ser uma mulher nascida na tradição Iyengar?

AI: Não sei. Eu não sei o que é ser um homem no sistema Iyengar Yoga… Se me permite reformular sua pergunta: Yoga é diferente para homens e mulheres? Eu acho que é, porque cada gênero tem sua natureza própria; seu caráter é diferente, cada qual é específico de seu próprio gênero. Nas aulas em que Geetaji (a filha de BKS Iyengar) ensinava, ela mencionava isto e dizia: “Tudo bem, você é um homem. Você concentra seu poder aqui. Eu sou uma mulher, eu tenho meu poder.” Obviamente é diferente porque temos uma constituição diferente, nosso software é diferente, nosso hardware é diferente, deste modo, o que vai projetar-se é também diferente. Se dissermos: “Vamos fluir da mesma maneira”, então estaremos sendo cegos com relação ao nosso software e hardware, e acho que isto não faz o menor sentido.
Vou tratar especificamente da prática de asana e pranayama. Um homem pode ser capaz de fazer Chaturanga ou apoio sobre as mãos com maior facilidade que uma mulher, por causa da diferença de constituição. Enquanto uma mulher, em virtude da sua flexibilidade nos isquiotibiais, pode achar que as extensões para frente e asanas correlatos são muito mais acessíveis, porque as mulheres possuem a região pélvica mais aberta. Agora, o homem precisará descobrir o que ele tem que fazer para encontrar a flexibilidade, e a mulher precisará descobrir o que ela tem que fazer para obter força. Mas se vamos desistir daquilo que é intrínseco à nossa natureza alcançar, então temos um problema. Temos que aceitar o que é intrínseco à nossa natureza. Uma das lições mais belas que aprendi baseia-se nisto: eu não preciso perder a minha feminilidade para conquistar o que preciso conquistar.

AS: É maravilhoso termos você aqui hoje conosco e lecionando para nós durante todo este mês. Obrigada! Namaste!

How to Open Ourselves Out: A Conversation with Abhijata Iyengar, entrevista de Annie Schliffer, originalmente publicado na Parabola, Volume 43:3, nº 3, The Journey Home, Fall 2018, https://parabola.org/2018/07/28/how-to-open-ourselves-out-a-conversation-with-abhijata-iyengar/

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