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SÉRIE: Educação em Yoga Online – Sessão 10

SÉRIE: EDUCAÇÃO EM YOGA on-line
por
Shri. Prashant Iyengar
Décima sessão, gravada em 09 de maio de 2020
Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute
Transcrição livre, traduzida por Bruna Paez, revisada por Katia Dacosta, ABIY.

Namaskar! Na nova sessão de hoje, quero responder a certas perguntas, não necessariamente dúvidas ou questões, mas também satisfazer alguma curiosidade, e tudo isso é bem-vindo.

Dhyāna e meditação

Temos discutido sobre o aspecto da meditação e, deixe-me lembrá-lo, eu sempre disse que meditação não é dhyāna. A meditação que estávamos discutindo era um aspecto de dhyāna. Dhyāna é um conceito mais amplo. Tendemos a equiparar dhyāna com meditação e meditação com dhyāna, o que não é apropriado.

A meditação que estávamos discutindo se referia à menção de Guruji de que sua prática era uma meditação dinâmica e meditação dinâmica é um dos pré-requisitos das práticas meditativas. Você precisa ter uma meditação dinâmica que envolva as funções das faculdades superiores do cérebro.

Na vida cotidiana não precisamos de todas essas habilidades. Só precisamos ter percepção, cognições, memórias, alguma imaginação, análise, lógica, raciocínio… Isso é o que precisamos no dia-a-dia. Mas o cérebro humano foi dotado das funções das faculdades superiores, das quais não precisamos na nossa vida comum; no entanto, elas estão lá. E a meditação, como eu disse, é um termo psicológico, é um ato psico-mental e, portanto, trata do pensamento, do pensador, do pensar, que vimos durante algumas sessões.

Hoje, o que quero dizer é que, mais uma vez repito, não confunda dhyāna e meditação. Em nosso mundo, tem havido muita confusão com terminologias, muita confusão com as palavras e também a necessidade da tradução para o inglês. Essa é a necessidade atual. Cem, duzentos, trezentos anos atrás não era necessário traduzir tudo para o inglês, mas hoje é muito necessário usar o inglês, expressar-se em inglês, comunicar-se em inglês, portanto, temos que ter cuidado com isso.

A meditação dinâmica da qual falamos e que Guruji tinha em suas práticas, você deve saber que era para a hierarquia dele. Você e eu realmente não estamos nesse nível e não sentimos a necessidade de meditar enquanto estamos em Śirṣāsana, Sarvāṅgāsana, Halāsana, Urdhva Dhanurasana, Trikoṇāsana

Hoje, a palavra meditação entrou no mercado de consumo e é algo que as pessoas recorrem para simplesmente relaxar e distensionar, pois estamos continuamente estressados e sentimos a necessidade de ter algum controle sobre isso. Se estamos estressados, angustiados e tomamos certas medidas que nos desestressam, que tornam a mente calma e serena, tendemos a dizer que isso é meditação.

A meditação tem uma conotação no âmbito do consumo. A meditação tem outra conotação no âmbito filosófico ou no âmbito dos filósofos. Às vezes, quando os filósofos falam de meditação é num âmbito diferente; eles buscam alguma transcendência. Não é possível tentar meditar estando absorto nos assuntos do mundo material, preso no lodo mundano, só porque seja algo que o ajuda a escapar das adversidades do mundo material… Para os filósofos, é outra conotação, não se trata apenas de [ter] uma mente relaxada.

Simplesmente relaxar a mente com certas medidas chamadas de meditações não é exatamente meditação. A meditação deve ser um processo de pensamento superior, na qual as funções das faculdades superiores do cérebro estão em vigor — “pensividade”, reflexividade, “meditatividade”.

Qualidade dos pensamentos e potencial meditativo

Há muitos pensamentos que são reflexíveis. Certos pensamentos podem refletir, certos pensamentos podem ser refletidos. Neste momento, deixe-me dizer, há muitas classificações do pensamento: pensamentos prazerosos e dolorosos; estressantes, tensos e relaxantes; pensamentos que ativam e pensamentos que pacificam; bons e maus; nobres e ignóbeis;  mundanos e sublimes; etéreos, transcendentes, virtuosos e viciosos; pensamentos bons e ruins.

Estamos familiarizados com essas diferentes classes. Como estudantes e como estamos em um processo de obter educação em yoga, gostaria que você pegasse um papel e listasse essas várias classes de pensamentos com os quais estamos familiarizados: pensamentos bons e maus, nobres e ignóbeis, ativadores e pacificadores, prazerosos e dolorosos…

Certos pensamentos têm um caráter filosófico — eles têm potencial filosófico ou contêm material filosófico. Esses pensamentos podem ser refletidos. Esses pensamentos podem refletir. Que tipo de superfície é necessária para que algo possa refletir? Deve haver brilho; deveria ser brilhante. Superfícies ásperas não refletem. Superfícies que têm brilho refletem. Nem todas as superfícies têm essa capacidade. Deve haver brilho na superfície para que ela reflita.

Da mesma forma, alguns pensamentos não têm capacidade de reflexão. Alguns pensamentos são opacos. Você não pode adentrá-los. São pensamentos confusos e incompreensíveis, nos quais você não encontra brecha para entrar.

Há certos pensamentos que são transparentes, pensamentos que têm transparência. Então, os pensamentos têm opacidade e os pensamentos têm transparência. Às vezes, os pensamentos são translúcidos. Note, esta é outra classe de pensamentos que você deve buscar reunir, porque esses pensamentos translúcidos e transparentes também são necessários e também se tornam úteis para a meditação. Faça um inventário e classifique seus pensamentos se você deseja desenvolver seu potencial meditativo.

Certos pensamentos o tornam pensativo, certos pensamentos o tornam reflexivo, certos pensamentos o tornam meditativo. Devemos ter um estoque suficiente desses pensamentos para a meditação e a “meditatividade”, porque, literalmente, a palavra meditação, “meditatividade”, implica estes tipos de pensamentos: dignos de reflexão, reflexíveis, ao invés de pensamentos refratários. Alguns pensamentos são refratários.

Mas, de qualquer maneira, você entenderá que essa meditação não está ao alcance de qualquer um. Não é para você nem para mim. Não há dúvidas quanto a isso. Basicamente, não precisamos disso nas atividades cotidianas ou no mundo exterior. Então, por que nos importaríamos em reunir esses tipos de pensamentos?

Se você tem uma mente filosófica, é um estudante de filosofia, estudante de yoga, você deve sentir a necessidade de tais pensamentos e, então, reuni-los. Por exemplo, se você ler um texto como a Bhagavad Gītā ou as Upaniṣad-s, reunirá muito material onde a reflexão é necessária. Se você lê um jornal, um romance ou uma ficção, a reflexão não é necessária. Mas a poesia e alguns poemas o tornarão filosófico. Isso acontece por causa do conteúdo do poema. O conteúdo do que lemos é muito importante; o material do pensamento é muito importante.

De qualquer forma, o ponto é que a meditação não é algo simples nem para você, nem para mim, nem para as pessoas comuns. Mas, como estudantes de yoga, precisamos dela. Já disse repetidas vezes que dhyāna não é meditação. Agora entendemos que é preciso alguma qualificação para meditar. Devemos ter um repertório de certos pensamentos, que são de natureza filosófica, de substância filosófica, onde o material do pensamento é de natureza filosófica. É uma qualificação: a menos que tenhamos tais pensamentos e a menos que tenhamos desenvolvido algumas faculdades superiores do cérebro, não seremos capazes de meditar. Isso requer qualificação e não há dúvidas quanto a isso. Mas, hoje em dia, temos confundido essa meditação com yoga e com dhyāna.

Agora, deixe-me ir direto ao ponto: yoga fala de dhyāna e da meditação da qual falamos — pensamento, pensador, pensar; a tríade, a trissecção dos três e, depois, a rotação dos três etc. [lição 5]. Este é um aspecto de dhyāna. Há outras facetas, fatores e aspectos… Portanto, dhyāna é um conceito mais amplo.

Hoje, nossa discussão se concentrará em desfazer a confusão entre meditação e dhyāna. Quando Guruji dizia que sua prática era meditação dinâmica, claramente isso se referia à hierarquia dele. Agora, nenhum de nós está na mesma hierarquia para poder dizer que nossa prática também é feita com meditação. É uma qualificação; se assim posso dizer, “qualificação B.K.S. [Iyengar]”. Se houver essa qualificação, nossos āsana-s também se tornarão meditação dinâmica. Isso é uma  qualificação. Temos que atingir essa qualificação, esse calibre.

Mas, como dhyāna é um conceito mais amplo, buscaremos entender seus tantos outros fatores e facetas. Existem certos dhyāna-s básicos, fundamentais, que não requerem qualificação alguma. Absolutamente nenhuma qualificação. Não precisam das funções superiores do cérebro. As funções normais das faculdades do cérebro são suficientes e podem até mesmo ser abaixo do normal. Dhyāna vem até mesmo para uma mente subnormal. Por que falar de qualificação, então?

Patañjali, em seu tratado, falou sobre três categorias de dhyāna, em três lugares, que correspondem a três diferentes calibres. Um desses calibres é que você não precisa de nenhum calibre.

Dhyāna é para todos.

Dhyāna é uma terminologia multifacetada, um termo multifacetado. Uma dessas facetas reside em questões filosóficas, que vimos anteriormente, onde certa qualificação e calibre são necessários. Por essa razão, não vamos considerá-la neste momento. 

Dhyāna e strota

Vamos procurar considerar o esquema de dhyāna dado por Patañjali. E dhyāna vem por muitas maneiras diferentes. Alguns estão familiarizados com certos stotra-s, que são hinos de louvor à divindade pessoal para fins de adoração. Se quiser adorar sua divindade pessoal, há stotra-s para isso.

Um dos mais conhecidos para a maioria dos indianos é Rāma rakṣā stotram [prece para proteção, dada pelo Senhor Rama]. Se você o ler cuidadosamente, perceberá que ele começa com a menção “atha dhyānam” [então, medite]. A divindade pessoal, nesse caso, é Śrī Rāma. E o que é dhyāna? Ājānubāhuṁ [aquele que tem os braços que alcançam os próprios joelhos]. Rama é ājānubāhuṁ. Se você recitar esse stotra, chegará a uma passagem bem no início:

[atha dhyānam]

dhyāyēdājānubāhuṁ dhṛtaśaradhanuṣaṁ baddhapadmāsanastham
pītaṁ vāsō vasānaṁ navakamaladalaspardhinētraṁ prasannam
vāmāṁkārūḍha sītāmukhakamalamilallōcanaṁ nīradābham
nānālaṁkāradīptaṁ dadhatamurujaṭāmaṁḍanaṁ rāmacaṁdram

iti dhyānam

 

[Agora meditemos.

Meditemos sobre aquele cujos braços alcançam seus joelhos, que carrega arco e flechas, que está sentado na postura de lótus;

Que veste roupas amarelas, cujos olhos são como as pétalas da flor de lótus recém-aberta, que é de aparência sempre agradável;

Cuja visão está fixada em Sita, sentada em sua coxa esquerda, cuja cor é como a da nuvem de chuva;

Que brilha com vários ornamentos, que tem cabelos emaranhados que chegam até as coxas; meditemos sobre Ramachandra (aquele que brilha na Terra).

Assim termina dhyānam.]

Isso é dhyāna. Nós apenas cantamos e recitamos esse stotra como se fosse outra parte do ma rakṣā. Nós apenas o cantamos; o que não é adequado, correto. Essa é uma descrição de Rama para dhyāna. Devemos meditar em Rama, como uma divindade pessoal, e meditar sobre o significado e o propósito desses versos.

Outro verso com o qual você está familiarizado diz respeito a Vishnu. Esse também é um dhyāna mantra: 

 

śāntākāraṁ bhujagaśayanaṁ padmanābhaṁ sureśaṁ

viśvādhāram gaganasadṛśaṁ meghavarnaṁ śubhāṅgam

lakṣmīkāntaṁ kamalanayanaṁ yogibhirdhyānagamyaṁ

 

[Nós meditamos diante do Mestre do Universo, Senhor Vishnu, que é sempre pacífico, que se deita sobre uma magnífica cama de serpentes, que tem um lótus no umbigo;

Que é o Senhor dos deuses, aquele que segura o universo em suas mãos, que é ilimitado e infinito como o céu, cuja cor é como as nuvens, de beleza fascinante;

O Senhor de Lakshmi, cujos olhos são como o lótus aberto,  aquele que os iogues desejam alcançar por meio de dhyāna]

Você obterá dhyāna mantra em Viṣṇu sahasranāma [os mil nomes de Vishnu]; você obterá dhyāna mantra em Rudra Prashna [mantra védico em homenagem a Rudra, ou Shiva]. Quando há um stotra para uma divindade, há também dhyāna mantra. Esse é um outro significado da palavra dhyāna: meditação sobre a descrição das caracterísiticas da divindade pessoal.

Portanto, devemos conhecer o sentido, a descrição e o que dizem esses versos e isso deve estar inscrito ou representado na nossa mente. Até o śloka [verso] de Patañjali que recitamos é um dhyāna śloka. O primeiro verso, que todos vocês sabem, é:

 

yogena cittasya padena vācāṁ

malaṁ śarīrasya ca vaidyakena

yopākarottaṁ pravaraṁ munīnāṁ

patañjaliṁ prāñjalirānatosmi

 

O segundo verso é a representação da figura de Patañjali:

 

ābāhu puruṣākāraṁ

śaṅkha cakrāsi dhāriṇam
sahasra śirasaṁ śvetaṁ

praṇamāmi patañjalim

 

Esse é o dhyāna śloka. Essa é a configuração de Patañjali. Isso deve ser retratado em nossa mente e devemos meditar nessa forma descrita nos versos. Isso está implícito nesse śloka. Esse também é o significado de dhyāna. Começa com atha dhyāna e termina com iti dhyānam.

Você pode verificar nos diferentes stotra-s, de Ganapati, Dattatreya, Shiva, Shakti, Lakshmi… e você encontrará dhyāna śloka-s. Isso significa que a configuração da divindade pessoal deve estar representada na sua mente e ser o seu foco de atenção. Um dos significados de dhyāna é direcionar a mente para dentro. Apenas interiorize a mente.

Dhyāna no esquema de Patãnjali

Agora, vamos para outro significado de dhyāna que Patañjali menciona. Ele menciona dhyāna quando a mente está subnormal, perturbada, irritada, angustiada, atormentada, com medo, trauma etc. Tradicionalmente, [na Índia,] recebemos instruções [para recitar o nome de uma divindade pessoal] que vem de tempos imemoriais… É claro que não podemos chamar essa mente [perturbada] de mente meditativa. Não há “meditatividade”, mas há meditação, há dhyāna, há meditação da natureza de dhyāna, mesmo se você não estiver meditativo. Este é um tipo de dhyāna, que Patañjali menciona no sūtra II.11:

dhyānaheyāḥ tadvṛttayaḥ

[Os vṛtti-s criados pelas aflições grosseiras e sutis devem ser silenciados por meio de dhyāna.]

Quando você é afligido por vṛtti-s decorrentes dos shadripu-s, que advêm de medo, timidez, preocupação, ansiedade, raiva, estados mentais negativos, deve apenas recorrer ao nome da divindade pessoal. Mesmo se você não estiver em um estado meditativo, é dhyāna. Nesse sentido, isso é meditação. Mesmo não estando meditativo, isso é meditação.

Na verdade, você não está qualificado, você é desqualificado, você é subqualificado. Ainda assim, você pode praticar esta forma de dhyāna e, supostamente, você deveria fazer essa prática de dhyāna. Por que os śāstra-s e a ciência do yoga afirmam que não é necessário ter certo calibre para poder fazer dhyāna?

Para [entender] isso, será preciso compreender a nossa corporização. Para o seu corpo físico, goste você ou não, você toma o que é necessário. Se algo é bom para os seus músculos, sua pele, ossos, sangue etc., você o toma ou ingere. Não é que você goste de tomar suplementos como ferro, vitaminas, proteínas e cálcio… Mas, mesmo não gostando, você os toma. Por quê? Porque a matéria do seu corpo precisa disso, a matéria do corpo físico precisa disso; porque isso será nutrição para a sua pele, carne, músculos, tecidos dos ossos, células, fibras, células sanguíneas, partículas corpusculares — a matéria do corpo. Você precisa deles e, portanto, você os toma.

Da mesma forma, existem certos aspectos da anatomia e fisiologia esotéricas em que dhyāna é necessário no sentido de japa [murmurar, sussurrar repetidamente um mantra]. Japa é necessário para algum aspecto do nosso corpo e mente que a anatomia, fisiologia e psicologia exotéricas desconhecem.

No entanto, a anatomia, fisiologia e psicologia esotéricas dizem que japa é necessário. O corpo e a mente precisam disso. Se o coração, o fígado ou o sangue precisam, você toma algo. Você diz que isso é uma necessidade sua. Mas, há certos aspectos não identificados pela anatomia, fisiologia e psicologia exotéricas, que precisam de japa. Sūkṣma śārīra, o chamado de corpo astral ou corpo eletrônico, o necessita. Portanto, japa é absolutamente necessário.

Sendo você um iogue ou não, sendo um praticante de yoga ou não, assim como todo mundo precisa de proteínas, vitaminas e nutrientes, sendo forte ou fraco, estando em uma cultura física, intelectual ou mental, sendo um lutador ou um pintor, você os necessita e você os toma (ou “os consome”).

Da mesma forma, nos aspectos do corpo sutil, chamado sūkṣma śārīra, [ou] corpo astral, [ou] corpo eletrônico, japa é necessário. Todos devem recorrer à japa. Japa fará tudo por esse corpo sutil. Assim como o corpo grosseiro precisa de banho, sono, descanso, exercício, atividade, comida, recreação, [o corpo sutil precisa de japa].

Tente fazer uma lista do que seu corpo e mente grosseira precisam, desde comida até sono, atividade, descanso e recreação… Basta fazer uma lista de tudo isso e, então, você entenderá que o corpo e a mente precisam de muitas coisas. A recreação não irá necessariamente nutri-lo e vice-versa.

O corpo e a mente grosseira precisam de uma enorme variedade de coisas para suas funções, desde o descanso até exercício, desde a atividade à passividade, da nutrição à purificação, do banho à excreção… O corpo grosseiro precisa de tudo isso. Você precisa de um banheiro para tomar banho e para eliminar suas excreções. Tudo isso, o corpo grosseiro precisa. É uma lista longa e enorme. Todos vocês sabem disso, todos estão consentindo e atendendo a essas necessidades.

Todas essas necessidades existem para o corpo sutil também. Todas essas necessidades, absolutamente todas essas necessidades. Ele [o corpo sutil] também precisa de comida, nutrição, relaxamento, atividade, banho, excreção, exercício… Precisa de tudo que o corpo grosseiro precisa. Mas, tudo isso é suprido por um único meio: japa.

Japa é seu banho, seu exercício, seu descanso, sua recuperação, recreação… Pode ser que  não seja [o seu tipo de] recreação, mas é a recreação [do corpo sutil]. Pode não ser descanso para você, mas é descanso para ele. Você não dorme, mas o corpo sutil dorme — embora muitas vezes, quando as pessoas se envolvem em japa, elas acabem dormindo.

Logo cedo, nas práticas pela manhã, as pessoas tomam de seu japa mālā e fazendo japa, elas acabam dormindo. Às vezes, o corpo grosseiro também dorme durante o japa, mas isso não está implícito, não é o esperado. É o corpo astral, eletrônico, sutil, que precisa de tudo isso. E apenas um ato do tipo japa, na forma de japa, fará tudo.

Este é um ótimo esquema de adhyātma e você não precisa de nenhuma qualificação para isso. Bhagwama [o nome de Deus] ou o ma [nome] da sua divindade pessoal bastará. Isso é necessário para todos.

Você sabe que em todas as outras religiões teístas é dito que você deve se lembrar de Deus. O que é se lembrar de Deus? Você se lembra de algo que tenha visto, de algo que tenha experienciado… Mas, como se lembrar de Deus se você não O viu ou O experienciou? Você deve se lembrar dEle e o único meio é ma, pelo Seu nome.

Há muito o que fazer sobre nāma. Há toda uma tradição por trás de nāma. Em nossos sādhanā-s, nāma tem uma importância enorme, porque podemos recorrer ao japa, que é uma forma de dhyāna. Apenas estar em japa é dhyāna. Mesmo que você esteja distraído, mesmo que a mente esteja instável, divagando, envolvida em outras coisas, continue com essa repetição, mental ou oralmente. Há opções: o japa pode ser oral, pode ser mental, pode ser silencioso, pode ser sussurrado. De uma forma ou outra, japa pode vir, deve vir para o corpo sutil, para o corpo astral. Nenhuma qualificação é necessária.

Bhagwanāma [o nome de Deus] é japa. Bhagwat smaraam [lembrar-se de Deus] é japa.

Patañjali, em seu esquema, apresenta japa em três lugares:

  1. No primeiro capítulo [YS I.27, 28]: tasya vācaka praava| tajjapa tadarthabhāvanam
    [Ele (Deus) é representado pela sílaba sagrada āu, chamada praava. O mantra āu deve ser repetido constantemente, com sentimento e com entendimento de seu pleno significado.]
  2. Em Kriyā yoga [YS II.1]: tapa svādhyāya Īśvarapraidhānāni kriyāyoga
    [O zelo ardente na prática, o estudo de si mesmo e das escrituras, e a submissão a Deus é o yoga da ação.] Svādhyāya aqui é japa.
  3. Em niyama-s [no sūtra II.32]: śauca, santoa, tapaḥ, svādhyāya
    Svādhyāya também é japa.

Isso é dhyāna e isso não requer qualificação. No dhyāna anterior, vimos que a meditação requeria calibre, qualificação, mas aqui, não é necessário.

Dhyāna é algo que todos devem e podem fazer. Não há barreira de qualquer qualificação.

Não devemos confundir dhyāna e meditação. Meditação é um termo relacionado à psicologia. Dhyāna é um termo relacionado à religião, formas, modos e rituais de adoração etc. Este dhyāna é para todos. Vamos buscar entender esse dhyāna com mais detalhes na próxima sessão. Como eu disse, existem três tipos de dhyāna que Patañjali menciona. Vamos buscar entender dhyāna no esquema de Patañjali.

Yogaḥ cittavṛtti nirodhaḥ 

Antes de encerrar a sessão de hoje, como eu disse, essas aulas são para educação [em yoga], e tenho recebido perguntas de alguns ouvintes e espectadores. A desilusão é a coisa mais importante que estamos buscando extrair desta educação, formação.

Agora, todos vocês sabem o que é yoga: yogaḥ cittavṛtti nirodhaḥ [YS I.2], que é traduzido como “restringir a mente é yoga”. Não! Isso é um erro crasso! Restringir a mente não é cittavṛtti nirodhaḥ! Patãnjali não disse mano vṛtti nirodhaḥ. Ele disse cittavṛtti nirodhaḥ yogaḥ. Ele poderia ter usado a palavra mano vṛtti nirodhaḥ, mas cittavtti é totalmente diferente.

Mano vṛtti é, se assim posso dizer, a ponta do iceberg. Cittavtti é o iceberg. E esse mano vṛtti nirodhaḥ não nos fará evoluir. Todos os dias, quando cochilamos ou dormimos, seja por apenas meia hora ou uma hora, ou talvez quatro, cinco, seis, sete, oito horas de sono, há mano vṛtti nirodhaḥ. Nossas modulações mentais cessam. Há uma restrição da modulação mental em nosso sono profundo, no sono sem sonhos. Mas não evoluímos. Quando nos levantamos pela manhã, voltamos à estaca zero.

Mano vṛtti nirodhaḥ nunca nos fará evoluir. Mano vṛtti nirodhaḥ se repete todos os dias. Isso nos faz mudar, evoluir? De modo algum! Se o sono permitisse que o ser humano evoluísse, haveria apenas um puruṣārtha [objetivos da vida]. O seres humanos nasceriam e então iriam dormir. Caso acordássemos, tomaríamos um comprimido e voltaríamos a dormir e assim por diante, como se isso pudesse ser o agente da nossa evolução. Mano vṛtti nirodhaḥ não nos faz evoluir. Por isso, Patañjali não está falando de mano vṛtti nirodhaḥ, e sim de cittavṛtti nirodhaḥ.

Para explicar cittavtti, os cinco vṛtti-s são mencionados [YS I.6]: pramāṇa viparyaya vikalpa nidrā smṛtayaḥ. Eles são descritos para que você possa entendê-los. Mas, esses vṛtti-s não devem ser restringidos e esses vṛtti-s não podem ser restringidos a menos que você vá dormir, a menos que fique inconsciente. É possível pará-los, contê-los? [Não]. É por isso que cittavṛtti nirodhaḥ não se refere aos vṛtti-s do estado de vigília.

Os vṛtti-s do estado de vigília são pramāṇa, viparyaya, vikalpa, nidrā, smṛt. Para que pudéssemos entendê-los, eles nos foram explicados no plano da vigília, mas, na verdade, eles devem ser restringidos no plano interno.

Essa é uma categoria diferente de citta vṛtti, que deve ser restringida por meio do yoga. Não essa categoria de vṛtti-s, que todos achamos que temos que pará-los para estar em yoga. Estes vṛtti-s são interrompidos quando você dorme e isso é um jeito fácil. Se você não dormir, é só tomar um sedativo, um comprimido que você irá dormir. Se você dormir, esses vṛtti-s serão interrompidos. Por que você precisa então de abhyāsa e vairāgya?

Portanto, cittavṛtti nirodhaḥ e mano vṛtti nirodhaḥ não devem ser confundidos. Precisamos entender o que é citta e como isso é diferente de mente. O que é mano vtti? O que é cittavtti? O que é manas? O que é citta? Temos que esclarecer esses conceitos em nossa educação.

Isso é suficiente por hoje. Namaskar!

Perguntas e respostas

Você pode resumir novamente a física do processo do pensamento? Você mencionou os pensamentos transparentes, translúcidos e opacos, o que é interessante. Você poderia resumir isso para nós?

A questão é sobre a menção que eu fiz de que há muitos tipos de pensamentos. Alguns pensamentos são opacos, isso significa que você não pode penetrar realmente no pensamento. Algo que é agnóstico para você, algo muito agnóstico para você, onde você não consegue encontrar nenhuma brecha para penetrar no pensamento. É um pensamento bloqueado para você; existe uma tranca, você não pode abrí-la e adentrar o pensamento. Trata-se de um tema agnóstico. Há certos assuntos agnósticos para nossa inteligência, que são como portas fechadas para nós. Não podemos atravessá-las, não podemos ver absolutamente nada através delas. Por isso são pensamentos opacos. Isso acontece quando nos deparamos com pensamentos agnósticos.

No entanto, há certos pensamentos que são transparentes, em que é possível ver através deles. O pensamento é simples para a nossa inteligência, simples para o nosso calibre, por isso é quase transparente e também podemos ter a convicção do que é esse pensamento, do que se trata esse pensamento, qual a matéria do pensamento, o porquê desse pensamento, o propósito desse pensamento. É tudo muito transparente, porque você pode ver através do pensamento. Alguns pensamentos são transparentes, onde a sua inteligência pode penetrar, pode ver através do pensamento. Não apenas penetrar, mas ver através e penetrar. Esses são pensamentos transparentes.

Alguns pensamentos são pensamentos reflexivos, como algumas superfícies que refletem. Há brilho na superfície e o reflexo é gerado. Se você segurar uma placa de aço inoxidável na frente do seu rosto, você verá o seu reflexo. Ela capta [a imagem] e [a] reflete. Assim, há certos pensamentos que refletem e, em seguida, refletem novamente e, então, refletem outra vez mais. Como acontece ao colocarmos dois espelhos, um em frente ao outro, e ambos os espelhos refletirão infinitos reflexos um sobre o outro. Ambos os espelhos terão o estado de refletor e de reflexo, de refletido e refletidor. Os dois espelhos estarão refletindo e sendo refletidos e você obterá reflexos infinitos por causa dessa superfície — os dois espelhos, frente a frente. Se você segurar o espelho na frente do seu rosto, seu rosto será refletido. O espelho não será refletido no seu rosto, porque nosso rosto não é um espelho. Nosso rosto não terá reflexos; ele será refletido. O espelho mostrará reflexos.

Dessa forma, existem vários pensamentos que são reflexivos, que significa que você se torna pensativo, internalizado, que você se torna muito, muito reflexivo… Você diz que o pensamento provoca algo em você e você se torna pensativo, internalizado e depois, reflexivo.

Portanto, há certos pensamentos que são reflexivos, que podem refletir, que refletem, que são reflexos da sua própria mente. Alguns pensamentos refletem a sua própria mente. Esses tipos pensamentos existem e são esses os pensamentos necessários para a “meditatividade”, não os pensamentos opacos.

Há também certos pensamentos translúcidos. [Há pensamentos] transparentes, translúcidos, opacos, e que refletem. Esses são os vários tipos de pensamentos e, como estudantes de yoga, acho que vocês deveriam estudar, pesquisar e buscar identificar esses diferentes tipos de pensamentos. Porque para a “meditatividade” você não precisa de um pensamento opaco. Isso nunca vai funcionar. Nem um pensamento transparente… Isso não vai funcionar. O pensamento deve refletir e levar à reflexão, só então funcionará; é esse o tipo de pensamento.

No contexto de dhyāna que você mencionou, você deu o exemplo de Rāma rakṣā. Mais tarde, você também disse que isso é uma divindade pessoal. Isso vai além de “ismos ou religiões, não é?

Divindade pessoal não é um conceito universal, não vem na religião. Basicamente, estamos confundindo novamente… Eu já falei sobre a classificação de dharma e religião [lição 4]. Religião não é dharma. Dharma não é religião.

No dharma da tradição indiana, nós temos uma divindade pessoal. Assim como todo mundo tem um ícone pessoal. Se o ícone pessoal é reverencial, é um tipo diferente de interação, a função da mente é diferente. Porque se você é leigo, se é desta ou daquela fé, ou de qualquer outra fé, você  tem um ícone. Esse ícone deve ser reverenciado, um ícone reverencial.

Suponha que alguém seja um ícone reverencial para você. Que tipo de pensamento você tem sobre este ícone reverencial? Isso é como uma divindade pessoal. A divindade pessoal é como um ícone reverencial para a mente, para a mente individual.

Assim, temos o conceito de divindade pessoal. A divindade pessoal, dentro de uma mesma família, pode mudar. Se há dez membros na família, é possível que cada membro tenha dez divindades pessoais. Isso é permitido. Isso porque não é possível ter o controle sobre quem você pode amar. É por isso que temos inúmeras divindades pessoais e, por termos liberdade [de escolha], podemos conectar facilmente a nossa mente à divindade pessoal, ou àquela divindade que não é  uma divindade pessoal.

Isso é uma vantagem, uma concessão oferecida à mente no Sanatana dharma [o dharma eterno e universal], no dharma, mas não em todas as religiões. Religião não é dharma, o que já discuti várias vezes em sessões anteriores. Essa divindade pessoal é uma grande concessão oferecida à mente, àqueles que estão no Sanatana dharma, àqueles que estão no dharma. Espero que isso esteja claro para você.

Obrigado!

 

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