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SÉRIE: Educação em Yoga Online – Sessão 2

SÉRIE: EDUCAÇÃO EM YOGA on-line
por
Shri. Prashant Iyengar
Segunda sessão, gravada 10 de abril de 2020
Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute
Transcrição livre, traduzida por Bruna Paez, revisada por Katia Dacosta, ABIY.

Existem dois aspectos no que diz respeito aos estudantes e buscadores do yoga. O primeiro, é que poucos estão interessados no yoga; e o segundo, é que há muitos interessados em saber o que no yoga é bom para eles. A maioria das pessoas hoje está interessada no segundo aspecto do yoga, em buscar, em saber o que no yoga é bom para eles – isso é como um tipo de consumismo, e não a abordagem clássica do yoga.

Todos já ouvimos o conceito “Yoga is for one and all“, o yoga é para todos, e estamos familiarizados com essa ideia, mas o mais preciso seria dizer “há algo no yoga para todos”. Muitas pessoas com diferentes disposições buscam o yoga, sejam elas materialistas, espiritualistas, teístas ou ateístas… A busca pode ser pelo bem-estar físico ou mental… Independentemente, o yoga tem algo a oferecer para cada uma delas. Talvez por isso é que nos perguntemos “o que no yoga é bom para mim?”, sem querer mudar nada em nós, somente saber o que no yoga é bom para nós. Mas na abordagem clássica, praticamos o yoga por causa do yoga.

Abordagem Clássica do Yoga

O que é o processo de Educação em Yoga? Não se trata de aprender sobre yoga, mas sim de conhecer a si mesmo. O yoga, sendo um tema “adhyatmico”, trata da educação sobre si mesmo, e tem sido descrito como um espelho (Darshana). O yoga é como um espelho para entender a si mesmo. O capítulo 13 do Bhagavad Gita diz: idam shariram kaunteya kshetram ity abhidhiyate. O corpo é sharira e kshetram é o campo.

Temos muito interesse no que se passa ao nosso redor e pouco interesse em nos conhecermos; queremos comer e digerir a comida, mas não queremos saber como a digestão funciona; queremos ser inteligentes, mas não sabemos o que é inteligência e como ela funciona; queremos usar o nosso cérebro, mas não queremos saber o que é o cérebro.

Se você quer usar o cérebro, isso implica que você deve saber pelo menos um pouco sobre o cérebro. Na nossa vida cotidiana, não precisamos disso, não queremos saber como funcionam nosso corpo, nossa mente e nosso cérebro, apenas queremos usá-los.

Na abordagem filosófica do yoga, devemos ser conhecedores do kshetram. O sharira é o campo e devemos ser conhecedores desse campo. No entanto, nós só queremos usar a nós mesmos, usar o corpo, a mente, o cérebro, a inteligência… isso é como uma espécie de tendência animal que possuímos. Se queremos nos sobrepor a essa tendência, devemos dar-nos conta disso: a corporalidade precisa ser conhecida.

Quem sou eu?

Sharira é o corpo, kshetram é o campo e nós somos os kshetrajñas, os conhecedores do campo. Jñana significa conhecimento e nós devemos tomar conhecimento deste corpo. Não se trata do conhecimento de um especialista em anatomia, porque o corpo no Yoga não é simplesmente físico. O sharira é dividido em três:

  • Sthula sharira, o corpo grosseiro, denso. Compreende o corpo físico e os aspectos psicológicos. Nos acompanha desde o nascimento e o deixamos para trás com a morte. Nos acompanha em uma única vida e depois é refeito, reconstruído, reconstituído para cada nova vida e encarnação.
  • Sukshma sharira, o corpo sutil ou astral. É um corpo de transmigração, que está lá antes do nascimento e depois da morte.
  • Karanasharira, o corpo causal.

Yoga é a busca por conhecer esses corpos.

A ciência do yoga também explica que o corpo é feito de envoltórios, como se fosse uma cebola. São eles: anamaya, pranamaya, manomaya, vijñanamaya e andandamaya kosha. Para comer uma cebola, você a descasca. Quando você retira uma camada da cebola, ainda há outra camada e ao remover cada uma dessas camadas, a cebola não deixa de ser cebola. Da mesma maneira, o nosso corpo é constituído de diversas camadas e precisamos explorá-las.

A Educação em Yoga é sobre como essa manifestação acontece no plano grosseiro. Como corpo, mente e respiração interagem? Como se relacionam entre si? Como é a sua interface? No asana temos a noção de que nós devemos fazê-lo, de que o yoga deve ser feito. Questione a si mesmo: você quer simplesmente estar fazendo yoga ou, eventualmente, você quer que o yoga aconteça em você?

De um lado, queremos fazer yoga e tudo o é possível e provável. Queremos fazer, fazer e fazer… Mas quando avaliamos a nossa prática, devemos ver o quanto o yoga acontece em nós. Quando embarcamos no yoga clássico, devemos abrir todos os campos da nossa corporalidade (corpo, mente, respiração) e observar a interface entre eles.

O yoga depende de como cada uma dessas partes afeta uma à outra mais do que o quanto você faz pelo seu corpo, pela sua mente e pela sua respiração. O yoga clássico depende dessas profundas interações. Quando há uma interface, as partes irão trabalhar umas para as outras. Como uma parte trabalha para a outra é o que vai decidir quanto o yoga vai acontecer em você.

Estabeleça-se em uma postura agora que seja familiar, onde você possa permanecer relativamente confortável por um longo período de tempo, como por exemplo, Supta Virasana ou Supta Baddha Konasana. Você deve estar confortável para poder aprender yoga e se educar em yoga. Em uma postura difícil e em pouca permanência de tempo você não será capaz disso.

Agora, tome consciência do corpo e dos ajustes do corpo, da mente e dos ajustes da mente, da respiração e dos ajustes da respiração, das atividades do corpo, da mente e da respiração e de como cada um pode afetar o outro (aula 1). E então, permita que a interface entre corpo, mente e respiração aconteça de uma maneira mais pronunciada. O quanto você pode fazer pela mente e o quanto a mente pode fazer por você? O quanto você pode fazer pelo corpo e o quanto o corpo pode fazer por você? Procure ir além… O quanto o corpo pode fazer pela mente e o quanto a mente pode fazer pelo corpo? O quanto o corpo pode fazer pela respiração e o quanto a respiração pode fazer pelo corpo? O quanto a mente pode fazer pela respiração e o quanto a respiração pode fazer pela mente?

A postura ajuda a essas partes do corpo a se relacionarem, a se corresponderem, a se comunicarem. Cientes disso, tentem compreender o quanto essas partes podem trabalhar juntas, sendo mutuamente benfeitoras e beneficiadas. A abordagem agora não é sobre como você pode se beneficiar com o yoga. Você será beneficiado de qualquer modo, porque quando o corpo, a mente e a respiração estão recebendo vantagens, você se beneficia indiretamente, mas não busque um benefício direto. Na cultura yóguica, devemos encorajar que os benefícios indiretos venham para nós porque cada uma dessas partes foi beneficiada mutuamente.

Em nossa vida cotidiana dizemos “esse é o meu corpo”, “essa é a minha mente”, “esses são os meus sentidos, “essa é a minha respiração”. Isso significa que estabelecemos uma relação entre nós e o corpo, a mente, os sentidos e a respiração. Se eles estão relacionados a você, quer dizer que eles estão relacionados entre eles. É intolerável (ou atroz) querer que a mente, o corpo e a respiração pertençam à nós e não querermos estabelecer mútuas relações entre essas partes.

Vamos a um exemplo: você tem um pai, uma mãe e uma irmã. Se você não permitir que a sua irmã trate a sua mãe como mãe e ela como sendo filha da sua mãe, isso é desumano. Você não pode simplesmente dizer “você é somente minha irmã”, ou que a sua mãe deva ser apenas a sua mãe, ou o seu pai somente o seu pai. Porque o pai é o marido da mãe e a mãe é a esposa do pai e os outros irmãos também se relacionam entre si. Então você deve encorajar que as relações mútuas aconteçam. Isso é o que acontece em uma família bem estabelecida.

Logo, sabemos que temos relação com as partes do corpo (mente, psique, consciência, respiração, sentidos), mas geralmente não reconhecemos que elas se relacionem entre si e, por isso não encorajamos essa interrelação. Se todas essas partes são ligadas a nós, devemos nutrir essas relações e deixarmos de ser autocentrados. Nos asana-s, devemos encorajar essas relações entre corpo e mente, mente e corpo, corpo e respiração, respiração e corpo etc. Isso cria um sistema familiar saudável dentro de nós e isso é muito importante. De outra forma, estaremos sendo atrozes.

Somos ensinados a como encorajar, nutrir e facilitar essas relações no asana. Como eles trabalham para si e para o sistema? Se corpo e mente são duas irmãs, vamos ver como essas duas irmãs interagem entre si. Crie um campo para que elas possam interagir entre si.

Na vida diária, social, familiar, pessoal, cometemos muitas atrocidades e os asana-s nos abrem para esse campo (kshetram) de novas possibilidades para termos uma família saudável dentro de nós mesmos. São relações maravilhosas a cultivar. As células do corpo, os aspectos da mente, os sentidos, a psique, a consciência, a respiração… todos têm mútuas relações. Nos asana-s, podemos abrir essas relações e, então, beneficiá-las. Dessa forma, podemos conhecer mais sobre o potencial, o risco, a disposição e a importância de cada uma dessas partes e como elas trabalham umas para as outras.

Na vida comum, queremos que essas partes trabalhem para nós. Quando vou para o meu local de trabalho, quero que a minha inteligência trabalhe para mim, então eu estou empregando-a para que trabalhe para mim. Eu emprego o meu corpo para que trabalhe para mim, emprego a mente, a psique para que trabalhem para mim, sem permitir que eles trabalhem entre eles mesmos. No yoga, nós permitimos isso e podemos aprender sobre essas interações.

O que o corpo faz pelo corpo, mente e respiração? O que a respiração faz pelo corpo, mente e respiração? O que a mente faz para o corpo, para a mente e para a respiração? Esses são aspectos grosseiros de nós mesmos. O que somos nós? Somos nada senão o corpo + mente + sentidos + respiração. Essa é a equação de nós mesmos. Somos um pouco disso tudo. Então vamos ver como cada parte trabalha uma para a outra e como interagem entre si.

Então, no asana, você não deve apenas trabalhar o seu peito, ou as suas costas ou o seu abdômen. A educação é entre respiração e a interação com o abdômen, a respiração e a interação com o peito, a respiração e a interação com as costas, a interação dos membros com o tronco, do tronco com os membros. Permita-os interagirem mutuamente. Esse é o primeiro passo para a Educação em Yoga.

Experimente e veja que conhecimento você adquire com isso. Como duas pessoas sábias que conversam entre si, nós apenas ouvimos o que elas têm a dizer, sem interferir em seu diálogo. Adquirimos muita sabedoria quando não interferimos. Somos apenas uma testemunha, um espectador, apenas aproveitamos essa interação. Similarmente, permita que corpo, mente e respiração tenham um diálogo. Em um estágio posterior, iremos perceber que a respiração é a entidade mais sábia do nosso corpo. Vamos ver como essa sábia respiração interage com as inteligências inferiores corpo, mente e outras partes. Como elas interagem entre si? Isso é Educação em Yoga. A educação é para dentro, quando você está em um asana, quando você está em um pranayama ou em qualquer processo yóguico.

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