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SÉRIE: Educação em Yoga Online – Sessão 9

SÉRIE: EDUCAÇÃO EM YOGA on-line
por
Shri. Prashant Iyengar
Nona sessão, gravada em 03 de maio de 2020
Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute
Transcrição livre, traduzida por Bruna Paez, revisada por Katia Dacosta, ABIY.

Namaskar a todos vocês! Bem-vindos à nova sessão de hoje.

Alguns detalhes sobre o que discutimos até agora: o ponto principal é moralidade, ética e yama-niyama-s. Para que fique mais claro, deixem-me acrescentar mais um aspecto em relação a isso.

Yama-s e niyama-s, práticas ético-religiosas

Na moralidade e ética, ao abordar os princípios de ahiṁsā, satya, asteya, brahmacharya, aparigraha, poderíamos alegar, a partir da noção que temos de hiṁsā e ahiṁsā, que estamos em ahiṁsā por não estarmos buscando hiṁsā, porque não cometemos hiṁsā. Moral e eticamente, estaríamos praticando ahiṁsā.

Agora, na moralidade e na ética esses cinco princípios são completamente diferentes, eles não estão relacionados entre si. Porque você pode estar em ahiṁsā, mas dizer: “Não estou em brahmacharya. Moral e eticamente, eu pratico ahiṁsā, mas não pratico satya, não pratico necessariamente asteya” ou “posso praticar satya. Estou em satya, mas não em ahiṁsā”.

Os meios utilizados para estar moral e eticamente em ahiṁsā são diferentes dos meios utilizados para estar em satya, asteya, brahmacharya… São diferentes resoluções. Temos que optar por um ou dois destes princípios e, então, teremos práticas diferentes.

Praticar ahiṁsā, moral e eticamente, é um tipo de prática. Para praticar satya, asteya, brahmacharya, aparigraha moral e eticamente, há outros tipos de prática. A mesma prática não o ajudará a criar as condições para estar nos princípios morais e éticos de ahiṁsā, satya, asteya, brahmacharya, aparigraha. Cada um deles exige diferentes tipos de intenção, determinação e meios para serem alcançados.

Quais são os meios para recorrer a ahiṁsā, moral e eticamente? Quais são os meios para recorrer a satya, moral e eticamente? São meios diferentes. São processos diferentes. E para que cada um dos cinco yama-s seja praticado moral e eticamente, temos que reformar a nossa abordagem de cinco maneiras diferentes.

Assim se dá no caso das práticas morais e éticas, mas esse não é o caso dos princípios ético-religiosos. Se você estiver ética e religiosamente em ahiṁsā, você não estará violando satya, asteya, brahmacharya ou aparigraha. Se você estiver em algum desses princípios, não violará os outros quatro — o que não acontece no caso de princípios ético-morais; você pode estar em um princípio, mas violar outro.

Então, quando se trata de um princípio ético-religioso, entenda isso: é um processo integral. Os recursos para ahiṁsā, a infraestrutura para ahiṁsā, a prática para ahiṁsā, qualquer esforço para ahiṁsā também o equipará para ir aos outros quatro. Não precisamos ter práticas separadas: uma prática ético-religiosa para ahiṁsā, outra para satya, mais outra para asteya, mais outra para brahmacharya e aparigraha… É uma e a mesma prática. É o mesmo material da consciência e da psique que terá cinco dimensões.

No que diz respeito aos princípios ético-religiosos, você não pode dizer que está em ahiṁsā, mas não em satya, asteya, brahmacharya ou aparigraha — o que pode acontecer no esquema ético-moral: você pode estar em um violando os outros. Se você violar um, não significa que está violando todos os outros quatro. Mas, no caso dos princípios ético-religiosos, esse não é o caso.

O sādhanā para todos os cinco yama-s, e mesmo para niyama-s, e mesmo mais tarde, para āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna, samādhi, nada mais é do que o acúmulo de sattva  guṇa, o desenvolvimento da essência. Por isso é chamado de satsanga. Satsanga é sattva sanga, satsanga é santa sanga, satsanga é satya sanga.

O conceito de satsanga tem que ser entendido primeiro como vem em adhyātma. Da mesma forma, o sādhanā sanga. Qualquer que seja o sādhanā para um yama, é bom o suficiente para os outros quatro yama-s. Você não precisa ter práticas separadas. Isso é satsanga, sādhanā sanga, śāstra sanga, āhāra vihāra ācāra vicāra “sattvicos”. As práticas são uma e a mesma. E mesmo para os āsana-s quintessenciais, é a mesma prática, o mesmo material. Se esse material estiver lá, você poderá praticar āsana-s quintessencialmente. Da mesma forma, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi.

É por isso que existe um esquema mais amplo de satsanga, sādhanā sanga, śāstra sanga e āhāra vihāra ācāra vicāra “sattvicos”. Portanto, devemos desenvolver nosso entendimento com relação a isso. O que são realmente esses aspectos? Quais são suas nuances? Quais são suas implicações?

O ponto é que, na moralidade e ética, você pode praticar um aspecto e, ao praticá-lo, você pode violar os outros quatro, ou qualquer um dos outros quatro; enquanto que nos princípios ético-religiosos, você não pode fazer isso — se um deles for violado, todos serão violados. Se um é praticado ético-religiosamente, os outros também são praticados, porque o yoga é um processo integral. Essa é outra diferença entre os dois. Este era o esclarecimento que eu gostaria de dar.

Explorando o conteúdo do pensamento no āsana

Agora procedemos formalmente à nossa sessão de hoje. Vamos embarcar nela. O que vamos discutir hoje para nossa educação? Como ontem, sugiro que você assuma as mesmas posições que experimentou ontem — Śīrṣāsana ou Bharadvājāsana  ou Utthita Hasta Padāsana.

Ontem vimos os estágios preparatórios e fizemos isso a partir do paradigma espinhal, do paradigma das costas. Hoje também vamos manter o paradigma das costas e o paradigma espinhal. No entanto, deixe-me dizer, o que você fez ontem a partir da vigia espinhal, da vigia das costas, se você fizer isso desde a vigia do cérebro, você terá uma constituição diferente de outros processos.

O que quer que tenhamos tentado ontem, o fizemos buscando experimentar, entender, compreender e isso foi feito a partir do paradigma espinhal, da centralidade espinhal. Agora, você pode experimentar o mesmo a partir da cabeça, do cérebro, do rosto, do crânio — conectividade, relatividade, condições associadas, condições necessárias, abordagem do corpo, abordagem da respiração, abordagem da mente… Grosseiramente, esse foi o esqueleto da sessão de ontem, feito a partir da coluna e das costas. Hoje, estou sugerindo que você pode fazer isso a partir do cérebro. Será uma negociação diferente, um esquema diferente, um processo diferente.

No entanto, hoje, estamos novamente voltando à coluna e as costas, mas procuraremos explorar o conteúdo do pensamento, porque a menos que tenhamos um conteúdo de pensamento adequado, compatível, digno de meditação, não seremos capazes de acessar a “meditatividade”. Então, vamos ver como isso pode ser feito, como podemos coletar suntuosamente o material do pensamento, que pode escalar para os processos de “pensividade”, reflexividade, “meditatividade”.

Então, assuma suas posições, assuma uma das três posturas. Você pode trocar de lado por conta própria. Você também pode mudar a postura dentre essas três. Há três opções que você pode escolher.

Geralmente, a nossa endoutrinação, que foi adquirida por nós mesmos, não que tenhamos sido doutrinados assim, mas que nos endoutrinamos assim — ouça isso atentamente: não é que todos nós fomos doutrinados assim, mas que a maioria de nós se endoutrinou assim por causa do elemento subjetivo da psique, consciência, compreensões, disposições, aspectos da mente… então, quando entramos na postura, o que geralmente consideramos, o que examinamos é: “Como eu fiz? O que eu fiz? O que ainda está por ser feito? O que precisa ser feito?”.

Apenas consideramos, achamos que āsana-s são “fazer” e, então, nosso hábito e também as instruções pertencem às nossas atividades — o que devemos fazer, o que supostamente deve ser feito, o que é que fizemos, o que tem que ser feito, o que ainda não foi feito, o que precisa ser feito…

Porque pensamos que yoga é fazer, fazer e fazer; porque temos uma ideia e noção estranhas de que yoga é um processo de atividade, de que yoga é ação, de que yoga é atividade, de que yoga deve ser feito. Esse é o verbo que associamos ao nosso esforço em yoga. Por isso, quando fazemos a pergunta a alguém, dizemos: “Você faz yoga? Eu estou fazendo yoga, você faz yoga? Todos deveriam fazer yoga. Fazer yoga é bom para todos.” Acreditamos que é algo a ser feito e essa é a grande falha.

Mais cedo ou mais tarde, teremos que entender que não se trata somente de ter uma lista de checagem: “O que eu fiz? O que eu deveria estar fazendo? O que poderia ser feito? O que pode ser feito? O que ainda é para ser feito?”. Em vez de ir para o fazer e verificar o que estamos fazendo, uma vez que estamos preparados no plano da sensitividade, da atentividade e da atividade, devemos agora questionar. Quando você está fazendo a sua posição ou está na sua postura:

“O que estou percebendo [detectando]? O que estou sentindo? O que estou conhecendo?”

Em vez de constantemente se perguntar: “Eu fiz…? Eu fiz…? Eu fiz…? O que eu fiz?” por que não fazer esta pergunta: “O que estou conhecendo?” Por estarmos trabalhando com a sensitividade e com a atentividade, essa questão agora deve ganhar proeminência em nossas dinâmicas. O que estou percebendo, sentindo, experimentando e o que estou conhecendo?

A partir do paradigma espinhal, como você está fazendo, busque entender: “O que estou conhecendo sobre a interação da minha coluna com o resto do tronco? Da interação das minhas costas com o resto do corpo?”

Busque conhecer ao invés de apenas buscar fazer por um processo técnico de realização.

Questione-se: “O que conheço sobre a interação da minha coluna e costas com o resto do corpo? Sobre a interação da minha respiração com a coluna? Da minha atentividade mental e a coluna? Sobre a interação entre respiração e mente? Do corpo, da respiração e da mente e suas interações mútuas? Vamos buscar entender o que estamos conhecendo aqui.

O processo do conhecimento é muito importante. Devemos desenvolver esse hábito de questionar o que conhecemos, que se baseia em sensitividades, atentividade, percepções. Assim, obtemos material e conteúdo de conhecimento em nosso processo.

Processo do conhecimento: o que conheço?

No “o que conheço”, há três aspectos: (1) algo é conhecido, (2) algo está conhecendo e (3) há um conhecedor. Por conseguinte, reuniremos algumas informações no banco de dados com relação ao conhecimento, no que diz respeito à entidade (1) subjetiva, a que faz; (2) objetiva, o que é feito; e (3) instrumental, o fazer.

O que conheço sobre meu próprio estado, meu estado mental, meu estado psicológico-mental, meu estado emocional? O que conheço sobre isso, sobre meu próprio estado?

Alguém pode ver a sua postura e seu professor pode dizer onde você está errado e onde você está certo e o quanto você está errado e o quanto você está certo. Mas, quando se trata do seu próprio estado subjetivo, somente você pode fazê-lo. Como está o seu estado subjetivista: “Estou sendo claro? Tenho clareza? Estou quieto? Estou relaxado? Estou no processo do conhecimento?”. O ponto é que devemos desenvolver esse hábito de nos questionarmos: “O que estou conhecendo?”.

Agora, prossiga com o esquema que vimos e negociamos ontem — condições associadas entre corpo, mente e respiração. Então, aborde o corpo associado: “O que conheço? Quando quero abordar a matéria do corpo, órgãos do corpo, partes do corpo, o que conheço?”.

Em seguida, vem a condição de considerar [atentar para] e de abordar a respiração. Novamente, isso mudará. O conteúdo mudará em relação ao que sabemos sobre a respiração, a matéria respiratória e o conjunto da respiração.

Da mesma forma, o conjunto da mente, a condição de considerar a mente, de abordagem da mente: “O que conheço sobre a minha mente?”. Há uma entidade conhecedora que está conhecendo. Vamos buscar reunir algum material, conteúdo, informação, banco de dados para a entidade conhecedora que está conhecendo.

O conhecer, o conhecido e o conhecedor

Então, [como um ferreiro que usa a bigorna para forjar e transformar seus metais, coloque] a entidade do conhecer na bigorna: como é o conhecer? Percepção, sensação, cognição, memória…? Isso dará margem para o processo do pensamento. Será um processo de pensamento único.

Depois, o conhecido. Haverá novamente uma constituição tripartite do conhecedor, conhecer e conhecido e suas interações. Qual é a substância, o conteúdo do pensamento quando você busca olhar objetivamente a entidade conhecida — conhecimento sobre o conhecido, o pensamento sobre o conhecido, o pensar sobre o conhecido? E como é o pensador quando o conhecido está sendo conhecido, ou, quando o pensar está sendo conhecido, como é o conhecedor? Qual é o papel do conhecedor? Qual é o perfil do conhecedor? Colocando o conhecido na bigorna, vamos ver o processo do pensamento com relação à experiência do conhecimento que vem.

Certamente experimentamos algo enquanto estamos fazendo um āsana, mas não damos importância a isso. Não olhamos para isso como um locus do pensamento, um recurso do pensamento. Vamos buscar entender o que é o pensamento quando objetificamos o conhecido. O que é isso que é conhecido? Objeto do conhecimento. O que é o objeto do conhecimento?

Alternadamente, teremos que colocar o conhecer na bigorna, as instrumentalidades. Essa será uma base de conhecimento diferente, porque o conhecimento está relacionado ao conhecer. Então, a entidade subjetiva, o próprio conhecedor.

No misticismo do yoga e adhyātma, há a condição ou proposição:

“Conheça o conhecedor.”

Não estamos familiarizados com isso, o conhecedor conhece, mas não buscamos ir para um processo onde o próprio conhecedor é conhecido. O conhecedor, o conhecer e o conhecido se tornarão objetos de conhecimento. E esses três produzirão diferentes materiais de pensamento e o processo do pensamento evoluirá.

Como eu disse durante aquele delineamento sobre meditação [lição 5]: pensador, pensar, pensamento. Você vai identificar aqui um pensador. Quando há um processo de conhecimento, você pensa. Mais uma vez, deixe-me dizer-lhes que enquanto falo com vocês, vocês não são apenas ouvintes. Vocês não podem simplesmente estar ouvindo; vocês terão um processo de pensamento a partir do que digo. Vocês também são pensadores agora. Identifiquem isso.

Isso não é identificado. Vocês pensam que são ouvintes, mas o assunto do qual estou falando é tal que vocês invariavelmente estarão num processo do pensamento. Você também é um pensador, assim como eu sou um pensador sobre o que devo dizer, o que devo falar agora. Portanto, estou pensando a cada afirmação que sai de mim. Estou pensando o que devo dizer e como devo dizer; estou pensando enquanto estou falando. Não posso ficar sem pensar enquanto falo.

Da mesma forma, você está recebendo tal assunto e invariavelmente, está pensando enquanto ouve, enquanto escuta, enquanto acompanha, compreende e entende. Então, o seu pensador está ativo, o pensar está ativo. Portanto, há um pensamento, um pensador e um pensar até mesmo em você agora.

Descubra agora na posição que você está fazendo — Bharadvājāsana, Śīrṣāsana ou Utthita Hasta Padāsana, desde a perspectiva espinhal. Observe o processo do pensamento. Como isso muda entre a abordagem do corpo, a abordagem da respiração e a abordagem da mente? Como a matéria e o conteúdo do pensamento mudam, o processo do pensar muda e o perfil do pensador mudará? Comece a desenvolver literacia para isso. Este é um componente importante do yogāsana: processo de conhecimento.

Os dois canais do āsana e a “meditatividade”  

Como disse ontem, há também a proposição de você fazer a sua atividade do corpo, atividade da respiração, atividade da mente. Fazer. Então, você também está buscando permanecer. Essa é uma implicação do āsana, de que você deve permanecer no āsana. Geralmente você é ensinado a fazer um āsana, você nunca é ensinado sobre permanecer no āsana e achamos que a técnica do fazer é a técnica para permanecer. Isso não é adequado, não é uma lógica sólida. A técnica para permanecer tem que ser diferente da técnica para fazer.

Você estará na fase do fazer, você estará na fase do permanecer, na fase do manter, na fase do penetrar… Você também estará considerando a intensidade da sua atividade porque você quer fazer o seu āsana intensamente. Penetração, intensidade… e, então, você vai buscar uma condição de estabilidade.

Você passará por todas essas várias fases que vêm no primeiro canal da rendição do āsana, que é: fazer, ficar, manter, eficácia, intensidade, acesso, liberdade, obter uma condição estável. Em todos os lugares, o conteúdo do pensamento mudará. Destaque cada uma das fases. O conteúdo do seu pensamento mudará, o processo do pensamento mudará, o perfil do pensador mudará.

E, então, no outro canal, o que fazemos? Enquanto você está fazendo, você está aprendendo. Você está meramente fazendo seu Bharadvājāsana, Śīrṣāsana ou Utthita Hasta? Você está aprendendo. Por causa desse processo do conhecimento, você está estudando, há algo para estudar.

Assim, você passará pelas fases do fazer, aprender, estudar, entender, compreender e os vários processos necessários como percepção, cognição, análise e, então, irá para uma condição estável através do processo do conhecimento.

Em ambos os processos, o conteúdo do conhecimento mudará. Busque explorar isso enquanto você pratica sozinho durante algumas sessões. Busque entender como o conteúdo do conhecimento mudará em todas as fases: (1) fazer, permanecer, manter, intensidade, eficácia, liberdade, obter uma condição estável; por outro lado, (2) fazer, aprender, estudar, compreender — o que implica experimentação, observação, análise, percepção, processo do pensamento e, então, vá para uma condição estável. Em todos os lugares, o conteúdo do pensamento irá mudar. Marque isso! Explore isso nas sessões que praticaremos para esta lição em particular.

Você certamente descobrirá que, novamente, há um enorme material para a tríade que consideramos na meditação: pensador, pensar e pensamento. E isso será mais pronunciado quando você tiver esta proposição: o processo do conhecimento.

O que eu conheço? Como eu conheço? Quem é o conhecedor?

Quem é a entidade que conhece, a entidade instrumental?

A sua atentividade, a sua mente, o seu processo intelectual, emocional, mental, de memória, cognição, percepção, todas essas são entidades instrumentais que constituem o conhecer, o pensar. E, então, há um pensamento em si.

O conteúdo do pensamento também mudará para cada fase que você negociar em um āsana clássico. Āsana não é apenas fazer.

Essa é a falha na nossa doutrinação. Fomos erroneamente endoutrinados pelas nossas próprias influências subjetivas, não que nossos professores tenham feito essa doutrinação. É por nossa própria intromissão, nossa interferência que nos endoutrinamos a nós mesmos. É por isso que pensamos que é apenas fazer, fazer e fazer. Não entendemos as várias fases dos āsana-s, as quais venho repetidamente dizendo.

Você verá que há muito material para meditação, para “meditatividade”, particularmente, quando você está no processo do conhecimento, ao invés do processo do fazer. Ontem estávamos no processo do fazer, onde eu sugeri o processo do conhecimento. Isso produzirá muito material para “meditatividade”, onde há pensamento sobre o pensador, pensamento sobre o pensar, pensamento sobre o pensamento.

Há pensamento sobre o pensamento, há pensamento sobre o pensar, há pensamento sobre o pensador. É dessa forma, por causa desse processo, que existem potenciais de “meditatividade” nos āsana-s. Com isso, encerro o preceito de hoje. No entanto, vou responder a uma pergunta que chegou até mim.

Yoga e adhyātma

Alguém fez esta pergunta: “O que os āsana-s podem fazer para além do físico e do espiritual?” Sabemos que os āsana-s fazem algo para o físico. E, então, alguns de nós têm a ideia de que os āsana-s fazem algo para o espiritual também. A pergunta é: “Além desses dois, o que os āsana-s fazem?”

Isso significa que a pessoa considera, que a pessoa sabe que os āsana-s promovem benefícios ao físico, como o físico é um beneficiário. A pessoa também parece considerar, assumir, presumir, saber que o āsana faz algo para o espiritual, que a espiritualidade também é uma beneficiária. Mas a pessoa deseja identificar se existe algum outro benefício, além do benefício físico e benefício espiritual.

Primeiramente, eu não sei o que a pessoa quer dizer com espiritualidade. Quando a pessoa assume que há benefícios para a espiritualidade numa pessoa, que há benefícios espirituais por meio dos āsana-s, gostaria que a pessoa questionasse a si mesma o que entende por espiritual. Porque agora está na moda dizer que o yoga é físico, mental e espiritual; ou seja, que, entre parênteses, é holístico. Mas há uma falha na própria palavra espiritual.

Sugiro que a pessoa vá ao dicionário e busque entender o que é “espiritual”. Existem dois significados:

  • fazer algo com o espírito — que também é espiritual;
  • algo relacionado com o que se chama de alma.

A alma e o espírito são, se assim posso dizer, conceitos bíblicos. Yoga não busca nada espiritual. Não tem nada a ver com evolução espiritual, desenvolvimento espiritual, benefícios espirituais, condicionamento espiritual, porque o que consideramos é o Ser.

Metafisicamente, o Ser não busca nenhum benefício. O Ser não tem nenhum benefício, não busca nenhum benefício, nenhum benefício pode ser dado a ele, nenhum benefício ele dará. Metafisicamente, a entidade chamada Ser não é o que recebe, nem o que dá, nem o beneficiário, nem o benfeitor. Portanto, a palavra mais adequada e precisa seria adhyātma.

Agora, se a pessoa acha que o yoga traz um benefício espiritual, se a pessoa acha que é um summum bonum [o sumo bem] espiritual. Se benefício espiritual significa um summum bonum espiritual o bem supremo, objetivo supremo, a realização final — isso é chamado de summum bonum espiritual humano. Se é essa a noção na mente do questionador, há tantas coisas entre o físico, o material e o assim chamado “espiritual”. O yoga traz benefícios em cada estágio.

O yoga tem muito a oferecer a você e a mim e mesmo para uma pessoa muito mundana, materialista e até mesmo profana. O yoga tem muito a nos oferecer. O último degrau na evolução será o summum bonum espiritual — esse é o pináculo, o ponto culminante. O primeiro é o acampamento base. O que o yoga dá para aqueles que estão no acampamento base — pessoas materialistas, mundanas, voltadas para os aspectos do mundo, emaranhadas no mundanismo? Todas essas são as nossas condições. Estamos presos na mundanidade, nos aspectos materiais e práticos da vida.

Então, a pessoa acredita que há benefícios do yoga neste degrau mais baixo, mas o yoga é útil para todos os degraus, desde o acampamento base até o ponto culminante, que é o summum bonum espiritual. Vamos passar por vários estágios e etapas, e o yoga tem algo a oferecer para cada estágio de nossa evolução.

Nos yoga sūtra-s de Patãnjali há três classificações [YS I.22]: neófito, medíocre e proficiente. Ele menciona o yoga para três: principiantes, neófitos; praticantes de hierarquia média e praticantes de hierarquia suprema.

O yoga tem muito a oferecer no nosso processo, no nosso nível. O yoga tem muito a oferecer para pessoas sagazes, sábias, pessoas nobres. Eles também adoram o yoga. Eles olham para o yoga com reverência porque há muito para obter no yoga. Somos você e eu, e depois, aqueles que são melhores em nobreza, melhores no desenvolvimento da consciência. Eles também obtêm do yoga. Há dádivas que vêm do yoga.

A seguir vêm as pessoas elevadas [ou excelsas]. Para nós, eles são iogues. Nós os chamamos de iogues. Em nossa avaliação, eles são iogues. Os iogues também recebem muitas dádivas do yoga, muitas recompensas do yoga. Haverá certas pessoas que serão iogues para os iogues. Algumas pessoas são iogues para nós, mas os iogues olharão para outras pessoas como iogues para eles. Eles sabem que estão muito à frente deles. Eles também receberão recompensas.

Assim, haverá vários níveis de consciência à medida que evoluímos. Em cada nível, o yoga tem algo a oferecer. É por isso que o yoga foi comparada a kalpavriksha [a árvore divina descrita nas escrituras védicas; com raízes feitas de ouro, tronco de prata, galhos de lápis-lazúli, folhas de coral, flores de pérola, botões de pedras preciosas e frutos de diamante], que concede todos os benefícios àqueles que estão no caminho da nobreza, àqueles no caminho do dharma, àqueles no caminho do yoga…

Finalmente, haverá algo para a fase culminante dos iogues que estão prestes a se emancipar. O texto de Patañjali inclui uma coisa para cada hierarquia de iogue. Cada etapa, estágio de evolução da consciência receberá algo do esquema geral de Patañjali. Reverenciamos Patãnjali. Alguém como Jñaneshwar, Yājñavalkya, Vyasa… Eles também reverenciam Patañjali. Isso porque Patañjali tem algo a oferecer para cada um deles. É dessa maneira que o sistema de Patañjali é rico em dádivas, desde o acampamento base, onde todos nós estamos, até alguém que está prestes a alcançar o pináculo. O yoga tem algo a oferecer para cada um.

De qualquer forma, o conceito de espiritualidade precisa ser reconsiderado. O conceito de espiritualidade é uma dimensão única. Mas, em nossa tradição, não temos nada como “espiritualidade”, temos algo chamado adhyātma e adhyātma é tridimensional. Você simplesmente não pode ir atrás de uma busca “ādhyātmica”. Você tem que corrigir sua busca ādhidaivika, busca ādhibhautika, busca ādhyātmika.

É dessa forma que a tradição nos deu a sabedoria e o roteiro para seguir o caminho de evolução da nossa consciência e seguir em direção a apavarga [emancipação, liberação, iluminação], que é o Bem Supremo. Portanto, o uso de termos como espiritualidade deve ser eliminado. Não condizem com a tradição nem se mantêm perante a razão. De todo modo, espero ter satisfeito o questionador.

Muito obrigado! Isso é suficiente por hoje. Namaskar!

 

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